Desde que peguei em um tambor pela primeira vez, há um pouco mais de dez anos, nunca havia experienciado isso. Talvez por cuidar bem de meus tambores. Talvez por afiná-los sempre. Talvez por sempre conversar com eles e com suas peles. Talvez simplesmente por sempre ter trocado peles desgastadas e por agradecê-las a cada vez que as tirei de algum tambor. Pode parecer loucura, mas minha relação com meus instrumentos é profunda. Me aprofundo na relação com eles pra me aprofundar comigo mesma.
O fato é que ontem, pela primeira vez, uma dessas peles que sempre me ouviu e que tantas vezes falou por mim, quis me dizer algo. E eu nunca tinha vivido um rompimento como esse. E como sempre, ela me respeitou. Me deixou dizer até o final, mas ali, na última música, como quem calou até onde pode, gritou. Se rompeu de fora a fora. Sem motivo. Sem quê nem pra quê. Nova. Afinada. Bem cuidada. Se rompeu como quem grita no ouvido de alguém que ama e não quis ouvir. Eu? me calei. Ela (a pele) sabe melhor que eu que eu a respeito mais do que a mim mesma. E talvez ela saiba também que só ela poderia, ou conseguiria, me dizer isso.
Estou mexida, não triste. Foi dura a sensação. Vai ser difícil tirar a pele daquela arquilha e colocar outra. Vai ser difícil conversar e agradecer uma pele que precisou deixar de ser pra me dizer algo. Mas sigo inteira e feliz por saber que meus tambores sempre me ouviram e que estão comigo pra me dizer das coisas que eu preciso ouvir.
13 de abril de 2014
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