Na foto: Praia de Boa Viagem - Recife - PE, clicada por mim em 25/01/2010

"Quando estou mudo, quero dizer tudo."

.

6 de setembro de 2011

Uma carta para Cláudia

Te escrevo e nem sei bem o porquê. Só sei que é pra você que quero escrever. Eu sou de cartas. De muitas cartas. Hora longas, hora curtas. Você não me conhece e, menos ainda, eu te conheço. O fato é que depois que fui assaltada senti que precisava te escrever. Talvez te soe estranho isso. Não sei. Nunca tenho como saber como as outras pessoas vão sentir o que eu decido dizer pra elas. E, na verdade, nem eu mesma sei bem o porquê decido dizer pra elas.
Isso de ter sido assaltada e a forma como tudo aconteceu, me desestruturou muito. Não que eu tivesse muito estruturada... Mas é que em outubro do ano passado a minha vida desmoronou e desde o início do ano que eu venho colocando tijolinho em cima de tijolinho e acho que isso tudo deu uma desorganizada. E doeu. Agora voltando pra minha mente confusa.. O porquê te escrevo... Suicídio. Desde que li no seu perfil do facebook sobre o que aconteceu na sua família, fiquei com isso na cabeça. Eu perdi uma amiga assim. E quando acordei naquele dia, abri o facebook e me deparei com o que você postou, me deu um nó na garganta. E o nó desceu pro peito quando eu cliquei no link e li um texto teu, sobre tua infância e... Eu quis te dizer alguma coisa. Eu quis fazer alguma coisa por você. Talvez por saber ou por achar que podia imaginar a dor que você estava sentindo. Corri pro seu mural e num impulso escrevi aquilo. Eu queria poder sair pela tela do seu computador e te dar um abraço. Eu queria ter intimidade pra te dizer que eu estava ali pra qualquer coisa. Não tinha. Não tenho. Mas disse. Tentei dizer. Enfim, essa não é uma carta de justificativas ou pelo menos não tem a intenção de ser... Eu nem sei mais... Sabe? Quando eu escrevo, fico sempre me questionando se terei a cara de pau de fazer a carta chegar ao dono... O mundo virtual facilita esses encontros....Talvez você nunca saiba dessas palavras. Provável. E, como sempre, minhas cartas são confusas como a minha mente. Não escrevo, transbordo...
Me lembro perfeitamente do dia em que recebi a notícia: "a Ísis se matou. tomou muitos remédios, tentaram levar ela pra hospital, mas não deu. Ela deixou uma carta, estou com medo de ler.". Fiquei em silêncio. Quem me ligou foi um grande amigo, que tocava com ela, num grupo que eu algumas vezes frequentei ensaios. Isso não importa. Naquela hora passou um filme na minha cabeça, ela dançando, linda, sempre sorridente e forte: UMA RAINHA DE MARACATU, foi assim que a chamei na última vez que a vi e fiz uma foto dela dançando. Eu quase chorei. Não chorei, não no telefone com ele. Depois de um pouco de silêncio, o que consegui dizer, o que saiu de mim foi: "Ainda bem que ela conseguiu." E daí eu não sei o porquê e nem sei de onde tirei isso, mas sei que foi assim que eu senti. E sei que é isso o que eu penso cada vez que vejo uma situação dessas, quando sei de uma situação dessas. A dor é toda nossa. Nós ficamos. A dor de quem sofria a ponto de tirar a própria vida, cessa. Acho... Várias vezes já ouvi falar sobre crenças de que depois de uma morte assim, a pessoa (ou a alma ou seja lá o que for que viramos.. ou somos.. não sei..) fica assim ou assado.. e que temos que pedir pela alma da pessoa. Eu prefiro acreditar que a dor cessou no momento em que a pessoa conseguiu se matar. Sim, eu peço pela alma, mas por amor à pessoa e não pela forma que ela morreu. Talvez eu esteja errada, mas é assim que sinto. Eu já quis me matar. Eu já tentei. Não tive coragem. Nunca tive coragem e, sim, eu vejo o suicídio como uma forma de coragem. Não acho nem um pouco covarde, como dizem por aí. Me lembro de pelo menos duas vezes ter escrito uma carta pra isso... Mas coragem eu nunca tive. Cheguei ao ponto de escrever uma carta 'definitiva' e sair pelo mundo a fora me colocando em risco já que eu não tinha coragem de fazer, quem sabe o mundo fizesse por mim... Enfim. Se você me lesse aqui, poderia até procurar entre meus escritos do final do ano passado e início desse ano coisas desse tipo aqui no blog pra entender do que te digo, quem sabe?... Enfim.
Como eu disse no início, eu nunca sei porque escrevo e, menos ainda, porque paro no meio as minhas cartas. É aquela coisa, acho que preciso tirar de mim e aí, dou pra pessoa. Espero um dia poder te dar isso. Sem mal entendidos, sem interpretações, por favor. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é isso.

E é como eu te disse: Só consegue voar, quem tem asas e, se ele quis voar, é porque as tem.

Com muito carinho, um beijo,

Um comentário: