“Foi uma amizade curiosa que começou entre Narciso e Goldmund; agradou a poucos e às vezes parecia que também desagradava a ambos. (...) Nesta amizade ele era o espírito que dirigia, e durante muito tempo somente ele reconheceu o destino, a profundidade e o sentido dessa amizade. (...) Mas nunca parecia verdadeiramente satisfeito e de acordo com o amigo; frequentemente parecia sorrir e não levá-lo a sério. (...) Apesar de sua amizade, havia essa separação, a corda do arco estava tensa entre eles. (...) Enquanto isso, Goldmund era cada vez mais evitado pelos companheiros, ou então eles é que se sentiam postos de lado, por ele traídos. Ninguém encarava com bons olhos sua amizade com Narciso. Os maliciosos, aqueles que haviam se apaixonado por um dos dois, achavam que aquilo era contra a natureza. Ninguém queria ver aqueles dois amigos juntos. Parecia que eles estavam se isolando dos outros de modo arrogante, como se fossem aristocratas e considerassem os outros inferiores. (...) Mas o amor que o ligava ao amigo e seu hábito de passar muito tempo juntos não foram inúteis. Apesar das profundas diferenças de personalidade, cada um havia aprendido muito com o outro. Ao lado da linguagem da razão, uma linguagem da alma surgiu aos poucos entre eles; era como se houvesse ramificações da rua principal, alamedas pequenas, quase secretas. (...) Devagar, desenvolviam-se à luz do amor novos laços de alma para alma; as palavras vieram depois. (...) Mas esses contrastes eram superados por algo que tinham em comum: ambos eram requintados, diferentes dos outros por suas qualidades e sinais visíveis, ambos haviam recebido do destino uma missão especial. (...) Uma amizade tão forte e excludente era algo raro, provavelmente não isenta de perigo, mas como não duvidava nem por um instante da sua pureza de intenções, deixava-a seguir seu curso.”
(Colagem de trechos de 'Narciso e Goldmund', de Hermann Hesse)
Nenhum comentário:
Postar um comentário